Sobre Poesia

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Sobre Poesia

Post  wodouvhaox on Thu Apr 02, 2009 3:29 pm

por Sem

Existe uma passagem que só a poesia pode abrir. É uma passagem escondida por brumas, propositalmente, para proteger o sagrado das bisbilhotices de um mundo leviano e suspenso pela razão. As lendas nos contam que esse é um lugar de fantasia, para sempre perdido aos dias que correm. Alguns conhecem esse lugar e o chamam pelo nome de Avalon…

A razão profana o sagrado. O deus da razão é Apolo. E não resta dúvida de que ele, com a sua carruagem de fogo, tem poder para abrir os céus, de jogar luz e dissipar as brumas. Mas, do outro lado, o que aparece na margem iluminada, o que se espera não é o que é revelado. Apolo traz tanta claridade em seu bojo que com sua passagem espanta os passarinhos da noite, faz dissipar as sombras difusas, mas, na luz mais intensa, se formam outra sombra mais densa… Na outra margem, sol a pino, o que se revela é um mosteiro de arrependimentos, lugar para espiar culpas, de uma vida nunca inteiramente vivida, ao invés de uma vida por inteiro…

Há coisas que só a penumbra pode revelar. E a poesia tem esse dom de turvar e de revelar por inteiro. São as últimas palavras que nos restam para ainda fazer uma derradeira magia e abrir as brumas e revelar Avalon. Que outras haveriam que não se deixem perturbar pela razão?

O deus da poesia é Dionísio. Esse deus tolo, esperto, trapalhão, cruel, mais ridículo que o fauno mais torto, mais perturbador que Cupido, mais alegre que o vinho, mais encantador do que Eros… O único fiel ao feminino em um mundo de deuses misóginos. Dionísio comporta contradições e escandaliza o mundo apolíneo que não se permite dubiedades. O mundo de Apolo não se permite…

Dionísio causa uma indisfarçada inveja em Apolo, que não compreende o entendimento que tem o deus do feminino e como as mulheres lhe respondem com igual fidelidade. Apolo também ama as mulheres, mas com ódio másculo no olhar, antes delas é mais dependente que amante. Não nos enganemos, que o supremo yang, depende do frágil ying para realizar o Tao. Já Dionísio, é forte e pleno em si mesmo. O que as mulheres amam em Dionísio é que suas alegrias são canção e motivo de risos e de dança para ele. E quando Dionísio as possui, não se sentem anuladas, como com Apolo. Dionísio não tem essa necessidade…

Mas quem pensa que as alegrias dionisíacas são somente puras alegrias, conhece da missa a metade ou não leu Nietzsche por inteiro. Não há como entrar nos reinos de Dionísio sem alegrias inteiras, que escondem dores inteiras… O mundo é um, como a falta é companheira da inteireza… Esse sentimento, muitas vezes contraditório, só encontramos em grandes poetas como Shakespeare, Fernando Pessoa, tantos outros e outras, mas poucos… “aquilo que chamamos rosa, com outro nome, teria igual perfume” É a poesia sem prozac. Um mundo de eternidades efêmeras, que os românticos compreendem de imediato, mesmo não sendo românticos, mas que tenham o espírito… Já aos que procuram apenas as figuras que o Sol ilumina, jamais conhecerão esse mundo de sombras… tênues. O mundo da poesia é um mundo vetado aos que não entendem a linguagem da alma ou que não tem laços com o vale de sombras e lágrimas que fica para trás antes da ascensão do espírito. O vale que permitiu e deu lastro para a ascensão segura do espírito, sem que ele retorne em queda rasante, qual Ícaro, como nos diz Hillman. Ou como disse um outro sábio não poeta velhinho suíço: “ninguém se ilumina projetando figuras de luz.” Poesia é antes de qualquer coisa uma linguagem de alma.

fonte: anoitan
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Re: Sobre Poesia

Post  wodouvhaox on Wed Jun 10, 2009 11:07 am

A fonte da poesia

por Edgar Morin

Ensaiarei sustentar a seguinte tese: o futuro da poesia reside em sua própria fonte. Mas que fonte é essa? É difícil perceber. Ela se perde nas profundezas humanas tanto quanto nas profundezas da pré-história, onde surgiu a linguagem, nas profundezas dessa embalagem estranha que é o cérebro e o espírito humano. Gostaria de adiantar algumas idéias preliminares para falar de poesia.

Inicialmente, é preciso reconhecer que, qualquer que seja a cultura, o ser humano produz duas linguagens a partir de sua língua: uma, racional, empírica, prática, técnica; outra, simbólica, mítica, mágica. A primeira tende a precisar, denotar, definir, apóia-se sobre a lógica e ensaia objetivar o que ela mesma expressa. A segunda utiliza mais a conotação, a analogia, a metáfora, ou seja, esse halo de significações que circunda cada palavra, cada enunciado e que ensaia traduzir a verdade da subjetividade. Essas duas linguagens podem ser justapostas ou misturadas, podem ser separadas, opostas, e a cada uma delas correspondem dois estados. O primeiro, também chamado de prosaico, no qual nos esforçamos por perceber, raciocinar, e que é o estado que cobre uma grande parte de nossa vida cotidiana. O segundo estado, que se pode justamente chamar de "estado segundo", é o estado poético.

O estado poético pode ser produzido pela dança, pelo canto, pelo culto, pelas cerimônias e, evidentemente, pelo poema. FERNANDO PESSOA dizia que, em cada um de nós, há dois seres. O primeiro, o verdadeiro, é o dos nossos sonhos, que nasce na infância e que continua pela vida toda. O segundo ser, o falso, é o das aparências, de nossos discursos, atos, gestos. Não diria que um é verdadeiro e o outro, falso, mas, efetivamente, a cada um desses dois estados correspondem dois seres em nós. A esse estado segundo corresponde o que o adolescente Rimbaud percebeu muito claramente, principalmente em sua famosa Carta do vidente: esse estado não é um estado de visão, mas um estado de vidência.

Poesia-prosa constitue, portanto, o tecido de nossa vida. Hölderlin afirmava: "O homem habita a terra poeticamente." Acredito ser necessário dizer que o homem a habita, simultaneamente, poética e prosaicamente. Se não houvesse prosa, não haveria poesia, do mesmo modo que a poesia só poderia evidenciar-se em relação ao prosaísmo. Em nossas vidas, convivemos com essa dupla existência, essa dupla polaridade.

Nas sociedades arcaicas, injustamente chamadas de primitivas, que povoaram a terra e formaram a humanidade, e que estão sendo massacradas na Amazônia e em outras regiões, havia uma relação estreita entre esses dois estados, que se encontravam entrelaçados. Na vida cotidiana, o trabalho era acompanhado por cantos e ritmos, e enquanto preparava-se a farinha nos pilões, cantava-se ou utilizava-se esses mesmos ritmos.

Tomemos como exemplo a preparação da caça, testemunhada pelas pinturas pré-históricas, principalmente as da gruta de Lascaux, na França.

Essas pinturas indicam que os caçadores realizavam ritos de encantamento sobre a caça, pintados depois na rocha. Mas não se satisfaziam apenas com eles: utilizavam flechas reais, estratégias empíricas, ou misturando as duas. Em nossas sociedades contemporâneas ocidentais operou-se uma disjunção entre os estados da prosa e da poesia.

Houve duas rupturas. A primeira ocorreu a partir da Renascença, quando se desenvolveu uma poesia cada vez mais profana. Ocorreu, igualmente, a partir do século XII, outra dissociação entre uma cultura dita científica e técnica e uma cultura humanista, literária, incluindo a poesia. Foi a partir dessas duas dissociações que a poesia autonomizou-se e tornou-se estritamente poesia. Separou-se da ciência, da técnica e, evidentemente, separou-se da prosa.

Separou-se dos mitos e, com isso, quero dizer que ela é mais mito, embora se nutra de sua fonte, que é o pensamento simbólico, mitológico, mágico. Em nossa cultura ocidental, tanto a poesia quanto a cultura humanista foram relegadas. Relegadas no lazer e no divertimento, relegadas por adolescentes e por mulheres, transformaram-se, de algum modo, num elemento inferiorizado em relação à prosa da vida.

Houve duas revoltas históricas da poesia. A primeira foi a do ROMANTISMO, principalmente, o de origem alemã. Representou a revolta contra a invasão da prosaidade, do mundo utilitário, do mundo burguês, que se desenvolveu no início do século XIX.

A segunda revolta foi a do SURREALISMO, cuja ocorrência pode ser situada no início do século XX. O surrealismo representou a recusa da poesia em se deixar reduzir ao poema, quer dizer, a uma pura e simples expressão literária. Não se trata de uma negação do poema, porque Breton, seguido por Péret, Eluard e outros, fizeram poemas admiráveis; mas a idéia surrealista é a de que a poesia extrai sua fonte da vida, com seus sonhos e acasos. Todos sabemos a importância que os surrealistas atribuíam ao acaso. O que ocorreu, então, foi uma desprosaização da vida cotidiana, que começou com Arthur Rimbaud, quando este se maravilhou com as tendas militares estrangeiras e com o latim das igrejas. Os surrealistas dignificaram os cinemas e foram os primeiros a admirar Charlie Chaplin. Em resumo, a primeira mensagem surrealista foi desprosaizar a vida cotidiana, reintroduzir a poesia na vida. Havia também uma revolta com aspirações revolucionárias, não apenas contra o mundo prosaizado, mas contra os horrores produzidos pela Primeira Guerra Mundial. Breton pretendeu associar a fórmula política revolucionária "mudar o mundo" à fórmula poética surrealista "mudar a vida". Mas essa aventura acarretou muitos equívocos, inclusive a autodestruição dos poetas, quando os mesmos pretenderam subordinar a poesia a um partido político. E aqui se encontra um dos paradoxos da poesia. O poeta não precisa se fechar no território restrito e confinado dos jogos de palavras e símbolos. O poeta possui uma competência total, multidimensional, que concerne à humanidade e à política, mas não se deixar submeter à organização política. Sua mensagem política implica ultrapassar o político. Localizamos, portanto, duas revoltas de poesia. E agora, qual é a sua situação neste fim de século e de milênio?

Inicialmente, podemos nos referir a uma grande expansão da hiperprosa, que se articula à expansão de um modo de vida monetarizado, cronometrado, parcelarizado, compartimentado, atomizado e de um modo de pensamento no qual os especialistas consideraram-se competentes para todos os problemas, igualmente ligados à expansão econômico-tecnoburocrática. Diante dessas condições, penso que esta invasão da hiperprosa cria a necessidade de uma hiperpoesia.

Há outro fato que marca este final de século: a destruição, ou melhor, a autodestruição da idéia de salvação terrestre. Acreditou-se que o progresso estava automaticamente garantido pela evolução histórica. Acreditou-se que a ciência seria sempre progressiva, que a indústria sempre traria benefícios, que a técnica só traria melhorias. Acreditou-se que as leis históricas garantiriam o desenvolvimento da humanidade e, tomando por base esse argumento, acreditou-se ser possível atingir a salvação na terra, ou seja, o reino da felicidade que as religiões prometiam no céu. O que se constata hoje é o abandono da idéia de uma salvação na terra, o que não significa ser necessário renunciar a idéia de aperfeiçoar as relações humanas e civilizar a humanidade. O abandono da idéia de salvação encontra-se ligado à compreensão de que não existem leis históricas, que o progresso não é automático e nem se encontra garantido. O progresso deve não apenas ser conquistado, mas, uma vez conquistado, pode regredir, tornando-se sempre necessário regenerá-lo.

Hoje, como afirma o filósofo tcheco Patocka, " o futuro encontra-se problematizado e ficará assim para sempre." Situamo-nos nessa aventura incerta e, a cada dia, os acontecimento que se produzem no mundo indicam que nos encontramos na noite e na neblina. E porque é assim? Porque ingressamos plenamente na era planetária, uma era na qual ações múltiplas e incessantes encontram-se em todas as partes da Terra, e no que concerne aos poços de petróleo do Iraque e do Kuwait diz respeito à humanidade como um todo. Ao mesmo tempo, devemos compreender que nos encontramos nesse pequeno planeta, nessa comum, perdidos no cosmos, e que nossa missão deve ser efetivamente a de civilizar as relações humanas sobre o nosso planeta. As religiões e política salvacionistas reiteram: sejamos irmãos, porque seremos salvos. Acredito que hoje seja necessário dizer: sejamos irmãos porque estamos perdidos num planeta suburbano, de um sol suburbano, de uma galáxia periférica, de um mundo desprovido de centro. Mesmo assim, possuímos plantas, pássaros, flores, assim como a diversidade de vida, as possibilidades do espírito humano. Doravante, aqui residirão nosso único fundamento e nosso único recurso possível.

A descoberta de nossa situação de perdição num gigantesco cosmos adveio das descobertas da astrofísica. Isto significa que, atualmente, é possível um diálogo entre ciência e poesia, e isso porque a ciência nos revela um universo fabulosamente poético ao redescobrir problemas filosófico-capitais: "O que é o homem?" "Qual é o seu lugar?" " Qual é o seu destino?" "O que se pode esperar dele?" Com efeito, o antigo universo de ciência era um máquina perfeita, inteiramente determinista, animado por um movimento perpétuo, um relógio permanente no qual nada ocorria, nada era criado, nada se alterava. Esta máquina, lamentavelmente pobre em sua perfeição, desintegrou-se. E o que vemos agora? Sabemos que o universo nasceu, talvez, há 15 bilhões de anos, de uma fantástica explosão, de onde bruscamente brotaram o tempo , a luz, a matéria, como se esse início fosse uma espécie de explosão desorganizadora a partir da qual o universo organizou-se. Encontramo-nos numa incrível aventura. A vida nos parecia banal, evidente, mas descobrimos que uma bactéria, com seus milhões de moléculas, é mais complexa do que todas as usinas do Ruhr reunidas. Demo-nos conta de que o real, que parecia tão sólido e evidente, dissipou-se sob o olhar da micro-física, e que, do ponto de vista do cosmos, o tempo e o espaço, que pareciam tão distintos, se misturaram. Muitos astrofísicos pressentem que esse mundo de separação do espaço e do tempo é como uma espuma constituída por algo diferente em que as separações do espaço e do tempo não existem mais.

Onde se encontra a poesia hoje? Na poesia e em outros domínios adquirimos a idéia de que não existe vanguarda, no sentido de que a vanguarda traz algo melhor do que aquilo que havia antes. Talvez a idéia pós-moderna consista em afirmar que o novo não é necessariamente o melhor. Fabricar o novo pelo novo é estéril. O problema reside na produção sistemática e forçada do novo. A verdadeira novidade nasce sempre de uma volta às origens. Por que Jean-Jacques Rousseau é tão prodigiosamente novo? Por que pretendeu debruçar-se sobre a fonte da humanidade, a origem da propriedade e da civilização e, no fundo, toda novidade deve passar pelo recurso e pelo retorno ao antigo. Pode ser que essa idéia seja pós-moderna, ou mesmo pós-pós-moderna, mas tudo isso é secundário. O objetivo que permanece fundamental na poesia é o de nos colocar num estado segundo, ou, mais precisamente, fazer com que esse estado segundo converta-se num estado primeiro. O fim da poesia é o de nos colocar em estado poético.
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