Os famosos e os duendes da morte

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Os famosos e os duendes da morte

Post  wodouvhaox on Thu Oct 22, 2009 7:46 am

por Rodrigo Fonseca

RIO - Gus Van Sant, François Ozon e Wong Kar-Wai, referências pouco citadas entre as influências dos cineastas brasileiros nascidos de 1980 para cá, são espelhos para o jovem paulista de 27 anos que conquistou o prêmio mais cobiçado do Festival do Rio 2009, há duas semanas. Abençoado pelo Redentor de melhor longa-metragem de ficção com "Os famosos e os duendes da morte", Esmir Filho fala de Ingmar Bergman, Krzysztof Kieslowski e Eric Rohmer onde seus contemporâneos evocariam Sganzerala, Glauber Rocha ou Bressane. Ele também conhece os mestres brasileiros e os respeita. Mas a trilha seguida em seu longa de estreia e nos filmes que o transformaram em um dos mais criativos e premiados curta-metragistas do país - "Alguma coisa assim", "Saliva" e "Tapa na pantera" - não é cinema-novista, nem marginal. É mágica.

- A câmera parada do Rohmer me atrai, por valorizar os diálogos, a palavra. Curto o estilo do Kar-Wai. Diretores como eles e Gus Van Sant têm uma câmera contemplativa sobre o sentimento humano. Mas não sei bem me encaixar, pois minha relação com esses cineastas é muito sensorial

Para Esmir, referências cinematográficas são inconscientes.

- Filmar é minha hora de falar, de tentar conversar com as pessoas sobre as coisas que eu acredito, sobre as coisas que eu sinto. Então, toda experiência de troca com os outros diretores e obras que marcaram minha vida vem à tona. Isso não é consciente, é mágico - explica Esmir, que exibirá "Os famosos e os duendes da morte" na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Magia ou não, "Os famosos e os duendes da morte" vem sendo comparado a "Paranoid Park" (2007), de Van Sant, desde sua primeira exibição fora do país, em agosto, no Festival de Locarno. Agendada para estrear em março de 2010, a transposição para as telas do livro homônimo de Ismael Caneppele trafega por um terreno pouco familiar ao cinema nacional: o entendimento existencial da Geração MSN.

- Eu me encanto por ritos de passagem. E a juventude é um ritual para a vida adulta. Crescer é dolorido como a primavera que rasga a terra com suas flores. Mas vale a pena quando chegamos do outro lado da ponte. Até agora é tudo o que sei, tendo 27 anos - admite o diretor, premiado na Semana Internacional da Crítica no Festival de Cannes 2006 pelo roteiro do curta "Alguma coisa assim".

Mapeando os dilemas de uma juventude que diz "não" em forma de ctrl+alt+del, o longa narra a adolescência de um internauta que mora no extremo sul do país, a cem quilômetros de Porto Alegre. Aos 16 anos, o rapaz (Henrique Larré), fã de Bob Dylan, é apresentado apenas como Mr. Tambourine Man. Órfão de pai, sem diálogo com a mãe (Áurea Baptista), Tambourine Man cicatriza na blogosfera as perdas que o sufocam, em especial a de uma amiga (Tuane Eggers), com quem compartilhava textos, sonhos e desejo.

- Bob Dylan é o símbolo da mudança, da autenticidade, do desapego. Em toda sua trajetória, ele deixou de ser algo que todos acreditavam para se reinventar. Não importa ser folk, rock ou gospel. O que importa é se reinventar - diz Esmir, lembrando que o compositor de "Blowin' in the wind" ainda é ícone para a juventude da Era Twitter. - Hoje, Dylan é jazz, improviso, intuição. Na internet, ele continua sendo de todas as épocas. É só assistir-lhe no YouTube, em vídeos de sua carreira, para perceber que ele é o presente.

Pisando em terreno desconhecido de si mesmo

Preparando um novo longa, novamente em parceria com Caneppele - "Ler as palavras de Ismael é como ver um filme que eu ainda não fiz", elogia - Esmir estreou na direção aos 19 anos, com "Ato II cena V" (2004), rodado em parceria com Rafael Gomes. O filme é estrelado por Maria Alice Vergueiro, protagonista de "Tapa na pantera", curta que explodiu em popularidade no YouTube, em 2006, projetando Esmir como um cineasta ligado esteticamente à web e a sua linguagem. Aliás, o diálogo criativo do diretor com a cartilha da internet foi uma das justificativas para a segunda láurea que "Os famosos e os duendes da morte" recebeu no Festival do Rio: o prêmio da Fipresci, a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, votado por críticos.

- Peguei a transição das gerações que cresceram com e sem internet. Nela, descobri pessoas com quem compartilhei sentimentos. Eram amigos virtuais, pessoas que se resumiam a um nick (apelido usado em conversas eletrônicas) em um chat (bate-papo), mas que, de alguma forma, eram reais. O protagonista de "Os famosos e os duendes da morte" se conhece a partir das relações que trava na internet, assim como eu tento me conhecer a partir dele - conta Esmir. - Os personagens são importantes para que a gente entenda o terreno desconhecido de nós mesmos. Por isso, eu os amo, como Wong Kar-Wai, Rohmer, Van Sant e todos os diretores que admiro amam seus personagens.

fonte: O Globo Online
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