Sexo, Drogas & Rock’n’Roll: Um Outro Nome Pra Deus

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Sexo, Drogas & Rock’n’Roll: Um Outro Nome Pra Deus

Post  wodouvhaox on Sun Oct 16, 2011 11:25 am

O que a doidera do pop tem a ver com a luta arquetípica entre o caos e a ordem

por Alex Antunes


“A música é um grande mistério. Em virtude de sua natureza sensual-espiritual e da surpreendente união que ela realiza entre a regra estrita e o sonho, a razão e a emoção, o dia e a noite, ela é sem dúvida o mais profundo, o mais fascinante e, aos olhos do filósofo, o mais inquietante dos fenômenos (...) A palavra ‘harmonia’ significa música, mas apenas secundariamente; originalmente, quer dizer matemática. Mas o mundo não é todo ele acordo e harmonia de esferas; ele possui tendências irracionais e demoníacas que os gregos não desprezavam, mas procuraram dominar e integrar em sua religião. Assim o culto de Eleusis adorava as forças obscuras do mundo inferior (...) Se o mundo é música, inversamente, a música é o reflexo do mundo, de um cosmos semeado de forças demoníacas. Música é número, a adoração do número, é álgebra ressonante. Mas a própria essência do número não conterá um elemento de mágica, um toque de feitiçaria? A música é uma teologia do número, uma arte austera e divina, mas uma arte em que todos os demônios estão interessados e que, entre todas as artes, é a mais suscetível ao demoníaco (...) E os sacerdotes e mestres da música são os iniciados, os preceptores desse ser duplo, a totalidade demoníaco-divina do mundo. É a esperança de uma humanidade que, ao invés de reprimir e portanto exasperar o irracional, aceita francamente, venera e portanto santifica essas forças demoníacas e coloca-as ao serviço da cultura”


O escritor alemão Thomas Mann, morto em 1955, não estava pensando no rock’n’roll quando escreveu este texto, chamado “A Missão Da Música No Mundo Moderno”. Mas ele serve bem pra descrever o mergulho no obscuro, nos tabus e no irracional que o rock (pelo menos quando está na sua melhor forma) propõe.

Desse ponto de vista, a tríade SEXO-DROGAS-ROCK’N’ROLL faz todo sentido. Desde as culturas milenares, as artes tântricas do sexo, os transes induzidos e a música rítmica dos rituais são caminhos conhecidos para o contato com o “outro lado”.

Assim, não é nada estranho que subgêneros musicais com uma visão abertamente mística como o reggae (associado à maconha) ou mundana como o techno (associado ao ecstasy) tenham essa simpatia pelo transe – e também não preciso lembrar que o sexo costuma fazer parte dessa equação.

A questão do transe, com todos os seus aspectos místicos, paradoxais e criativos, é tão antiga quanto a própria humanidade, e está registrada em todas as épocas e linguagens artísticas (na literatura, no teatro etc) , de maneira clara ou velada.

No século 20, o transe voltou a ser assunto da elite intelectual, como não era desde a Grécia antiga. Sigmund Freud, Carl Jung, Aldous Huxley, William Burroughs, Timothy Leary, Robert Anton Wilson, John Lilly, Terence McKenna, Stanislav Grof, entre outros tantos, caíram de boca (às vezes de nariz) no tema.

E, literalmente, o transe induzido caiu na boca (e na corrente sanguínea) do povo. Drogas cada vez mais acessíveis e variadas explodiram como parte crucial da cultura pop. E seu consumo acabou banalizado, na busca mais ou menos inconseqüente do chamado “barato”. Mas a questão essencial e metafísica continua lá, por trás da embriaguez aparentemente gratuita dos sentidos.

Pra quem tenha uma visão policial do assunto, vou repetir a conclusão de Mann: “É a esperança de uma humanidade que, ao invés de reprimir e portanto exasperar o irracional, aceita francamente, venera e santifica essas forças demoníacas”. I.e., não adianta negar o bicho que ele só fica mais nervoso.


A maior nação viajandona do mundo

Vá alguém tentar convencer um roqueiro, um regueiro ou um clubber de que ele deve ter uma moral legalista sobre as “substâncias ilícitas”. Na verdade, o ataque mais eficiente que pode ser feito à música e ao seu contexto transformador é um ataque indireto, diluindo os seus rituais em entretenimento (uma distração pras chatices da vida) ao invés de caminho pra uma OUTRA vida.

Do mesmo modo não adianta insistir que aquela música é ensurdecedora, que aquele sexo é de risco ou que aquela droga é destruidora – por mais que sejam, inclusive. Citando Rita Lee: “baby, baby, não adianta chamar/ quando alguém está perdido/ procurando se encontrar” (“Ovelha Negra”).

No mundo judaico-cristão, pra ficar nas imediações, o diabo (Lúcifer) e o conhecimento (luz) tem uma estranha proximidade. Diz a bíblia que comer da “árvore do conhecimento” leva à queda. Um mago desinibido como Aleister Crowley (1875-1947) não teve dúvidas em codificar um sistema de crescimento mágico e pessoal baseado na alternância de várias drogas e no sexo ritual.

Não espanta que alguns dos principais pensamentos de Crowley tenham virado refrão nas músicas de Raul Seixas e Paulo Coelho fase Sociedade Alternativa, e arrastem fiéis até hoje para um suposto raul-seixismo (na verdade um cozidão crowleyano *).

Afinal de contas o Brasil, além de propalada “maior nação católica do mundo”, é também a maior nação macumbeira (portanto não-culpada), e a pátria do maior culto de transe coletivo, o Santo Daime (dá vontade de acrescentar: então só falta um roquinho decente – porque o sexo vai bem, obrigado)...


Do tempo do amor ao tempo da angústia

Por falar em Brasil, e em discos feitos sob o efeito de drogas, também temos nossos álbuns drogados.

O mesmo que teve os codinomes “cilibrina” e “baurets”, entre os Mutantes, nos clandestinos anos 70 **. Essa também era a época das referências coloridas ao LSD – como em “Lindos Sonhos Delirantes”, de don “Juancito” Fabio. Aliás, colecionar referências setentistas às drogas seria uma tarefa praticamente infinita.

A década de 80 tem as (apropriadas) menções à cocaína em músicas como “Conexão Amazônica” e “Há Tempos”, da Legião ***. E deixou também um tributo inesperado à heroína na obra do Smack (o nome do grupo é uma gíria pra essa droga). A soturna música “Cavalos” (outra gíria), do segundo e derradeiro álbum, Noite e Dia, diz “À sós com a dor/ por puro prazer/ de sofrer”. Empolgante, né?

Dá pra notar a mudança de estado de espírito, do coletivismo festivo (anos 70) para o individualismo torturado (anos 80) – e ela corresponde também a uma troca de drogas. Saem LSD e maconha, entram coca e herô (a birita, droga legalizada, parece permanecer sempre como coadjuvante).

Na carreira-solo de Arnaldo Baptista há sintomas claros dessa transição do grupal para o individual: no seu primeiro álbum, Loki?, de 74, ele fala (já com nostalgia) da época idílica dos Mutantes, em músicas como “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?”: “A gente andou/ a gente queimou/ muita coisa por aí/ até estivemos todos juntos/ reunidos numa pessoa só”.

Pois em 82 ele intitulou seu segundo disco Singin’ Alone, pouco antes de se jogar da janela de um hospital. Não estou dizendo que o próprio Arnaldo tenha “mudado de droga”, mas que o estado do ânimo dele retrata a passagem do período (um pouco como a morte de Brian Jones pontuou o fim da alegria da swinging London, ao apagar das luzes dos anos 60).


Pra cima, pra baixo, pra dentro, pra fora

Como eu dizia, hoje são acessíveis dezenas de drogas, naturais e sintéticas, lícitas e ilícitas. Mas, ficando só nas mais populares (ou mais comentadas), dá pra fazer algumas divisões de “estilo” ou “personalidade da droga”.

Excluí desse esquema as substâncias naturais de uso religioso ou xamânico (peiote, São Pedrito, ayahusca, jurema etc) porque elas em geral são usadas em rituais que direcionam e “corrigem” as viagens para os resultados místicos pretendidos ****.

Fazendo um diagrama: podemos dizer que há drogas da “expansão vertical” (partindo do ego para estados amorosos, telepáticos ou transpessoais de percepção) e drogas da “expansão horizontal” (que facilitam a socialização, mas sem diluir ou questionar a “identidade” de quem usa).



Na metade de baixo coloquei as drogas da freqüência do ego: cocaína, crack (a base da cocaína, sem refino), heroína, anfetamina, álcool. Na de cima, as drogas da chamada expansão da mente ou as amorosas: LSD, ecstasy, maconha. Na metade da esquerda, drogas mais introspectivas: maconha, heroína, crack. Na da direita, drogas mais sociais: LSD, cocaína, anfetamina, álcool.

O grupo mais benigno (substâncias que podem atuar simultaneamente no desempenho social E na mudança da percepção pessoal) seria o do quadrante superior direito (LSD, ecstasy). Os outros trariam restrições de um tipo (diminuição das habilidades sociais) ou do outro (fixação nos aspectos mórbidos do ego), ou desses dois tipos simultâneamente – o que faria do crack e da heroína as drogas mais devastadoras.

Evidente que esse esqueminha não é exato química e nem fisiologicamente; nem trata de dosagens e graus de concentração (exceto no caso da coca e crack, que tem um patamar perceptível entre elas, apesar de serem a mesma substância).

Também não trata de efeitos colaterais perigosos (a desidratação no uso do ecstasy, por exemplo). E ainda é um tanto arbitrário ao separar o E (ecstasy) das outras anfetaminas.

Mas serve pra estabelecer que o “rodízio” de drogas díspares, ou a montanha-russa de baratos à moda do Dr. Gonzo (de Medo E Delírio Em Las Vegas, o livro de 71 de Hunter Thompson, filmado em 98 por Terry Gilliam), parece um passo ainda mais insensato, num território que já é minado por definição.


Drogas que ensinam, drogas que matam

Recapitulando: porque os artistas tomam drogas (e, como dizia minha avó, parece que também costumam transar com um monte de gente)? O desregramento conduz diretamente à criatividade? E porque os fãs tomam drogas – pra imitar seus ídolos ou pra viajar no som e partilhar um estado de espírito com eles?

Parafraseando Nick Hornby, eu gosto de música pop porque sou drogado ou eu sou drogado porque gosto de música pop? Nos exemplos mais criativos, esse é um sistema de realimentação. A droga afeta a percepção e rende experiências que são recicladas em “arte”, essa arte expõe o artista positivamente e essa exposição o deixa à vontade pra ir com segurança ainda mais longe – ou não.

A combinação de pressão da exposição pública e uso intenso de drogas pode levar ao desequilíbrio pessoal e à destruição sumária de talentos (o citado Brian Jones, Kurt Cobain, Janis Joplin, Jim Morrison etc), ou à degradação de carreiras – tipo a síndrome do junkie chato e decadente em cima do palco. Esqueça o RPM.

E, às vezes, o transe leva a regiões da percepção que dificilmente são traduzidas em música ou palavra que alguém em estado mais sóbrio decodifique – aquelas jams e letras rascunhadas “geniais”, que vistas/ ouvidas no dia seguinte são só uma confusão indigesta e incompreensível.

Da fase experimentalista (e condescendente) da contracultura, as bisonhas tentativas literárias de “escrita automática” ou espontaneista de Bob Dylan e John Lennon não nos deixam mentir – respectivamente nos livros chatinhos Tarântula e Um Atrapalho No Trabalho, de 71 e 69.

Já textos exemplares como Confissões De Um Comedor De Ópio, de Thomas De Quincey (1785-1859), foram escritos “a respeito” desses estados, e não necessariamente de dentro deles *****.

Por outro lado, o uso “sábio” de substâncias legais ou ilegais pode colocar artistas e platéias em estados de profunda sintonia, nos quais a música deixa de ser um exercício técnico pra se tornar uma comunhão e uma revelação (meu advogado samoano está resmungando que “‘uso sábio’ está no limite da apologia, cara”)...


Porque mandar a cabeça para o espaço?

A última grande pergunta é: porque alguém se arriscaria tanto nesses experimentos químicos desestruturadores da personalidade, ao invés de simplesmente viver uma vidinha pacata e distante dessas substâncias de efeitos imponderáveis?

A resposta é: PORQUE SIM – ou milhões de pessoas de todas as classes em todo o mundo não estariam procurando estados alterados aleatórios neste exato instante, cheirando cola de sapateiro ou tomando xaropes enjoativos no gargalo e injetando remédio de nariz na veia, ou aspirando anestésico de cavalo.

Voltando ao trecho inicial de Thomas Mann: é porque o irracional está exasperado, cansado de ser reprimido. Ou, em outras palavras, porque o atalho pra Deus hoje passa forçosamente através do Diabo.

Como disse William Blake, “o caminho do Excesso leva ao palácio da Sabedoria”. E Roberto Piva acrescenta, definindo o xamanismo: “é ir ao inferno e voltar vivo”. Ou mais vivo. Sexo, drogas e rock’n’roll: um outro nome pra Deus.


* Crowley deixou sua herança mágica pra vários outros roqueiros conhecidos – notadamente Jimmy Page – e para alguns agrupamentos mais experimentais, como o Current 93. Mr. C. também teria sido uma (ins)piração mal-digerida para o compositor e assassino Charles Manson

** Nunca houve confirmação de que a aparentemente ingênua “Chocolate” seja um hino ao haxixe. Fica difícil ter certeza, afinal de contas Tim Maia, além de junkie, também era comilão

*** Referências a drogas como lança-perfume, maconha e cocaína também aparecem em sambas antigos e recentes, como os de Bezerra da Silva, mas em geral parecem soar mais como crônicas marotas do dia-a-dia da malandragem do que um tributo à droga em si. A emblemática “Dá Um Tempo Malandragem” (“vou apertar/ mas não vou acender agora”) foi reciclada espertamente pelo Barão

**** A propósito, os xamãs acreditam que por trás de toda substância natural há um ser elemental, o espírito da planta, que revela sua individualidade a quem a ingere. Uma interessante lenda de maldição diz que o elemental da coca teria como missão destruir o “mundo branco”, como vingança pela derrocada do Império Inca e de sua sabedoria. Se for isso, o crack está fazendo bonito

***** Se bem que há o caso da ótima letra “Escola da Maldade”, resgatada pelo Atahualpa Y Us Panquis de um guardanapo esquecido numa mesa de bar, e que, apesar dos apelos públicos da banda, jamais foi reivindicada pelo seu autor – provavelmente um bebum inspirado porém sem memória nenhuma

(publicado na revista Zero #6, março de 2003)
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