Plunderfonia

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Plunderfonia

Post  wodouvhaox on Sat Dec 06, 2008 9:48 am



por Alexandre Matias

A plunderfonia é uma técnica criada pelo canadense John Oswald, no meio dos anos 80, que consiste em fazer novas músicas a partir de gravações já existentes. Aos olhos do leigo, a descrição pode parecer um passo à frente do remix, mas o conceito vai muito além. Utilizando apenas aparelhos reprodutores de áudio (principalmente toca-fitas de rolo, de cassete e vitrolas), discos e fitas, Oswald desenvolveu uma música de caráter terrorista, desconstruindo e reinventando clássicos estereótipos em trechos de som revolucionários. Com a plunderfonia, ele transforma a técnica do cut-and-paste num fim em si mesmo, descobrindo aspectos dentro da canção original que seus compositores e intérpretes sequer cogitavam.

Oswald inventou a técnica em 1985, depois de anos tentando, em vão, aprender a dominar um instrumento. Mas sabia que era músico e não iria deixar a inaptidão técnica impedi-lo de fazer sua arte. Como os primeiros DJs, voltou-se para os aparelhos de reprodução de som como um instrumento musical. Assim começava seu polêmico artigo "Plunderfônicos ou Áudio Pirataria ou Prerrogativa Composicional", reconhecido como o manifesto de sua arte, publicado no ano de sua concepção:

"Instrumentos musicais produzem sons. Compositores produzem música. Instrumentos musicais reproduzem música. Gravadores de fita, rádio, toca-discos, etc, reproduzem som. Um dispositivo como uma caixa-de-música movida à corda produz sons e reproduz música. Um fonógrafo nas mãos se um artista de hip hop ou scratch, que toca um discos como uma tábua de lavar roupas (em inglês, washboard - a tábua era usada como instrumento de percussão por artistas de blues, funcionando como um reco-reco) com uma agulha fonográfica funcionando de palheta, produz sons que são únicos e não apenas reproduções - o toca-discos torna-se um instrumento musical. Um sampler, em essência, um gravador, transformando um instrumento é simultaneamente um dispositivo de documentação e um dispositivo criativo, reduzindo a distinção manifestada pelo direito autoral".

O artigo continua extensamente e passa por tópicos tão controversos como "a fita vazia é derivativa", "o comércio do ruído", "quimeras de som", "o meio é magnético" e "natureza aural". E concluía, retumbante: "Toda música popular, essencialmente, senão legalmente, é de domínio público. Ouvir música pop não é uma questão de escolha. Quer queira, quer não, somos bombardeados por ela. Em seu aspecto mais vil, filtrado através de uma incessante linha de baixo, ela atravessa paredes de apartamentos e as cabeças dos transeuntes". Oswald não pregava apenas o fim do direito autoral, mas do conceito de autoria e a possibilidade de ganhar dinheiro com música.

Era algo sentido por toda a parte. Embora o uso de sons não-musicais como música e reprodutores de som como instrumentos musicais é uma idéia que remete aos pioneiros da música eletro-eletrônica (John Cage, Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez), mas no meio dos anos 80, com a revolução imposta pelo DJ de hip hop, uma série de não-músicos resolveu experimentar esta possibilidade. Nomes como os terroristas sônicos do Negativland ou os justapositores Double Dee e Steinski, radicalizavam a proposta pelo fim da autoria em música. Mas Oswald ia além.

Seu manifesto plunderpônico era acompanhado de um disco chamado Plunderphonic EP, que tinha quatro faixas: "Spring" (sobre trechos de A Sagração da Primavera, de Igor Stravinski), "Pocket" (sobre "Corner Pocket", do band leader Count Basie), "Don't" (sobre a música homônima de Elvis Presley) e "Pretender" (sobre a versão de Dolly Parton para "The Great Pretender"). Esta última dá uma boa idéia do que esperar do trabalho de Oswald. Ouvida por cima, a música é apenas "The Great Pretender" mudando de rotação, desacelerando lentamente. O lance é que Oswald acelera o disco para a voz de Parton soar mais fina e feminina possível, e vai desacelerando até soar como a voz de um cara. O toque final é de gênio, quando, no último verso, as duas Dolly Partons (a feminina e a masculina) cantam juntos, no tempo, certinho. Mas isso era só o começo.

A pirataria sônica de Oswald alcançaria seu grande momento graças a um disco lançado poucos anos depois. Inaugurando comercialmente seu conceito estético, o disco Plunderphonic, de 1989, trazia uma versão alternativa para a capa do disco Bad, de Michael Jackson, antecipando sua futura transformação em mulher branca e feia. A capa era apenas o primeiro dogma chutado. Outros viriam com o correr do disco.

Em 25 microcanções, Plunderphonics nos conduz a um passeio por um parque temático sobre a história do som gravado. Mas a cada canção, surge uma versão especificamente distorcida - às vezes derretidas e sincopadas, outras viradas do avesso e picotada. Todas as músicas preservam timbres e andamentos das faixas originais, mas soam como versões surrealistas de exemplos aleatórios de música pop. Em alguns momentos, estas mudanças causam náusea; em outros, admiração.

Trabalhando basicamente com recortes musicais e variações de rotação (além de superposição de ambas as técnicas), Oswald apenas leva às últimas conseqüências possibilidades abertas por pioneiros do experimentalismo na música pop, como Beatles, Beach Boys e Phil Spector. Mas sem o compromisso de ser pop e usando apenas músicas alheias, a plunderfonia proporciona uma viagem tão psicodélica quanto esquizofrênica pelo imaginário popular em inglês.

De cara, "Beatles" abre o disco com o acorde fúnebre que encerra o clássico disco de 1967, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. O acorde (um misão) era tocado em três pianos ao mesmo tempo, usando todas as notas mi, si e lá bemol (as três notas que formam o mi maior) e foi a idéia que John Lennon teve para encerrar o crescendo da orquestra no final de "A Day in the Life". Na versão de Oswald (que também é conhecida como "Btls"), o acorde é empilhado com outras gravações dele mesmo, criando uma maçaroca de som que cresce à medida em que muda de tom, até mutar-se em outro acorde beatle, o sol com quinta que abre a faixa e o disco "A Hard Day's Night". É apenas uma introdução, um "senta-que-lá-vem-história".

"Dab" entra em seguida, chutando tudo para o alto. Composta por microtrechos de "Bad", do Michal Jackson, a faixa vai acelerando a velocidade como se os gritinhos, chiados e tosses secas do Jacko fossem beats num drum'n'bass em rotação 45 RPM. "Way" faz algo parecido, mas respeitando a velocidade original, com "Strawberry Fields Forever". "Replica" usa trechos instrumentais do disco Trout Mask Replica, do Captain Beefheart, reinventando a esmo a base para o vocal intacto da faixa "Lick My Decals Off, Baby", do mesmo capitão, mas de outro disco.

"White" distorce a versão clássica de Bing Crosby para "White Christmas", com o vocais derretendo como neve em dia de sol. O final, soberbo, recorta um quarteto de cordas tocando tango e põe ao lado de pigmeus africanos cantores. O resultado soa como se fosse Natal na lua de Endor, o lar dos Ewoks. Elvis Presley canta sua "Don't" sobre um piano dissonante, até que sua voz se divide em duas, três, quatro... e o piano assume o controle da canção, destruindo sua auto-estimo. "Pretender" é a já citada operação sexual de Dolly Parton.

E por aí vai: "Black" transforma James Brown numa metralhadora de gritos tocada num CD com defeito de leitura - e sem perder o ritmo. "Birth" 'é "Birthday" dos Beatles, em versão instrumental - e é como se assistíssemos os Stray Cats virarem Frank Zappa. "Pocket" é um exercício de cut-and-paste sobre uma big band, limpando todos os clichês em prol da festa de timbres. "Net" transforma o Metallica num grupo de free thrash - pesado e cheio de improvisos no andamento. Ainda há free jazz, world music, Anton Webern, Judy Garland, Glenn Gould, Beethoven, Public Enemy... Todos picotados e reorganizados, música velha subitamente nova, de novo.

É esse o intuito e é essa a grande qualidade da plunderfonia: remixar nosso passado musical com os ouvidos do presente. É uma espécie de historiografia sonora, metapop, especialização em audição aplicada, discologia analítica. Algo que tantos os DJs quanto os terroristas sonoros estão descobrindo aos poucos, e que foi proposto por um não-músico há mais de dez anos.

Quando Plunderphonics saiu, foi alvo de um pequeno buxixo de crítica. Grande o suficiente para chamar atenção dos advogados de Michael Jackson, que conseguiram banir o disco - recolhendo suas cópias e destruindo as fitas originais. O trabalho de Oswald continuou incomodando, sempre pelo mesmo motivo: infringindo direitos autorais. Só em 1995 que um artista reconheceu o pioneirismo do artista, quando o Grateful Dead entregou mais de cem horas de shows para que o canadense as transformasse num imenso espetáculo instrumental. O resultado é o disco Black Star, lançado naquele ano. Aos poucos, o talento de Oswald foi sendo reconhecido e os tempos, mudando, conseguiram absorver sua mensagem - tanto que ele reeditou sua aula básica de plunderfonia com outro nome, 69 Plunderphonics 96, em que continuava na mesma linha do trabalho de 1989.

fonte: Trabalho Sujo

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